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O desafio da América Latina

28 Outubro 2016

Portuguese

Por Senén Barro.- A XXV Cimeira Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo que decorre desde hoje em Cartagena de Indias sob o lema «Juventude, Empreendedorismo e Educação". Talvez se trate do lema mais importante que já presidiu por essas Cimeiras e surge ainda num momento especialmente oportuno, com a região a atravessar por uma significativa desaceleração económica, e com uma questão que deve ser colocada, para onde caminhar no futuro?

Nos últimos meses tive ocasião de participar em duas das reuniões que antecederam a Cimeira.  Em ambos os casos, senti a falta de mais jovens entre quem tivemos a oportunidade de nos dirigir aos assistentes.  Eu já não sou jovem, e mesmo que tento pensar naquilo que poderá ser o melhor que podemos oferecer e deixar em herança a quem sim é, não estou muito certo de se aquilo que faço é o adequado.  A forma como olha para o mundo, como pensa e age um jovem encontra-se muito influenciada pela idade e pelas circunstâncias da vida e o ambiente dele.  Quando eu era jovem as minhas circunstâncias não eram as mesmas que as dos jovens atuais.  Portanto, acho que os valores que devem possuir e defender, o mundo em que gostava que vivessem ou os objetivos que deviam prosseguir, talvez não sejam aqueles que eles consideram ótimos e pelos quais estejam disponíveis para trabalharem e esforçarem-se.

A Ibero-América é uma região jovem, com uma forte imersão digital e altamente urbana.  Partimos, portanto, de uma matéria prima excecional, mas agora é a nós próprios que nos toca valorizá-la.  Muitos países ibero-americanos puseram em saldo os seus recurso naturais, e, se quiserem deixar atrás o «pântano» económico em que, frequentemente, se encontram, deviam evitar que tal acontecesse com os seus recursos humanos.

Avaliemos cada um dos tópicos do referido lema da Cimeira.  Anérica Latina é reconhecida como uma das regiões mais jovens do planeta.  Um em cada quatro pessoas tem entre 15 e 29 anos.  Ora, a maior parte dessa juventude apresenta fortes carências de formação, sendo muito desigual a qualidade da educação na região e existindo um elevado abandono escolar e uma falta de ligação da formação com o emprego.

Por outra parte, os millennials latinos destacam-se por fazerem um uso intensivo das tecnologias da informação e a comunicação (TIC).  Isso pode torná-los bons clientes das empresas de setor, mas nem por isso prescritores, desenvolvedores de conteúdos, serviços e produtos ou empreendedores TIC.

Finalmente, sendo a América Latina a região mais urbanizada de todo o planeta, acontece as suas cidades não estarem, em geral, a fazer tudo para se tornarem cidades do conhecimento, inovadoras e empreendedores, circunstância que, no meu entender, não deve ser confundido com a conhecida expressão smart cities ou cidades inteligentes. Na maior parte das que autodenominam assim, tornou a acontecer o erro de pensar que as tecnologias fossem o fim e não o meio.  Sirva como atenuante o facto de, por vezes, advir de um erro induzido por empresas ávidas de colocarem as suas tecnologias, serviços ou conhecimento na agenda dalguns responsáveis políticos que têm mais dinheiro, mesmo em momentos economicamente difíceis, do que ideias próprias.

Para evitar desentendimentos, proponho que mudemos o nome delas e falemos em cidades com talento para referirmos aquelas que estabelecem o seu trabalho e as políticas públicas com base num projeto de cidade enpreendedora e inovadora.  O talento é isso, a inteligência em ação, assim sendo, uma cidade com talento deverá integrar a inteligência urbana com um projeto transformador ambicioso.  Para que não pensem que falo de utopias, gostava de colocar o exemplo de Medellín, uma cidade que passou de ser conhecida mundialmente por Pablo Escobar e o narcotráfico a ser considerada uma das cidades mais inovadoras do planeta.  Não é magia.  É a continuidade de um mesmo projeto nas políticas municipais e regionais e, acima de tudo, o compromisso à volta dele das universidades, as empresas e administrações públicas, que consegue cativar a cidadania no seu conjunto.

Falemos agora sobre educação, palavra que, do meu ponto de vista, devia ser colocada à frente de empreendedorismo no mote da Cimeira.  Mudar os modelos e sistemas educativos não é bem assim uma questão pacífica visto que a região necessita de esforços muito empenhados para conseguir universalizar a educação.  Ora bem, se enquanto isso não se consegue renunciamos a melhorar a qualidade e o modelo dos sistemas educativas, teremos fracassado no que respeita à capacidade transformadora de quem se estiver a formar, mesmo nas universidades.

Há quem tenha alertado para o facto de existirem poucos estudantes em titulações STEM, acrónimo que decorre das iniciais em inglês de Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemáticas -ScienceTechnologyEngineering and Mathematics-.  Sem negar a importância dessa formação entre os que irão ser profissionais num futuro próximo, acho que existe outro STEM que não devíamos negligenciar e estamos mesmo a fazer isso.  Estou a falar nas competências Sociais -como a empatia, o trabalho em equipa e a interculturalidade-. Técnicas -realtivas às TIC, o exercício da direção e a tomada de decisões e a expressão oral e escrita, entre outras-, Executivas -liderança, empreendedorismo, autogestão...- e Mentais -persistência, resiliência, auto-conheciento, etcétera-.  Mesmo os titulados STEM irão necessitar destas competências para fazerem bem o seu trabalho, importa não perdermos tempo.

Falemos, por último, do empreendedorismo.  Designadamente o que se desenvolve por oportunidade, não por necessidade, e que é intensivo em conhecimento e/ou tecnologia.  É o que possui um maior potencial para a criação de emprego, particularmente, o mais altamente especializado, a criação de riqueza e a melhoria na qualidade de vida.

É por essa razão que esse tipo de empreendimento devia preocupar-nos especialmente, mesmo reconhecendo como são valiosos quaisquer empreendimentos que se iniciarem.   Devíamos trabalhar de modo a corrigir o facto de na Ibero-América menos de 15% das pessoas promotoras deste tipo de empresas sejam mulheres.  Devia preocupar-nos o facto de as nossas universidades de centros de investigação não conseguirem transferir os resultados do seu I&D de acordo com a quantidade e qualidade da investigação implementada.  Devia preocupar-nos a ausência de planos integrais e coordenados de apoio ao empreendedorismo altamente inovador.  Claro, a preocupação certamente poderá existir, mas visto o pouco que se tem avançado, a ocupação nem tanto.

Nesta XXV Cimeira Ibero-Americana tratar-se-ão importantes documentos, tais como o Pacto Ibero-Americano da Juventude, assinado no passado mês de setembro pelas ministras, ministros e responsáveis de Juventude da Ibero-América.  Da Cimeira irá sair uma Declaração carregada de bons auspícios e propostas à volta da juventude, a educação e o empreendedorismo.  Sendo isto positivo, tudo ficará em águas de bacalhau se não for acompanhada de compromissos absolutamente firmes à volta de projetos ambiciosos e coordenados para que a juventude da região receba a educação que requerem os países que aspiram a tudo, uma educação que também os incentive e ajude a empreender mais e melhor.  Não devia importar apenas aos que são hoje jovens, mas também a nós próprios.

Artigo publicado originalmente no jornal El Mundo

 

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